quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Canto do pequeno apreço

Todo dia era dia de olhar a lua, mas ah!, e quando ela se escondia? A pequenina menina já não sabia para qual lado procurar, perambulava todos os cômodos daquela casinha no meio do nada, abria todas as janelas e portas, sentava-se consigo mesma e seu pensamento todas as noites e um pedacinho da madrugada, sentava-se ali, naquele mesmo cantinho sempre, perto do lago. Quando se mudou para lá, dois senhores de meia-idade lhe contaram que bem à noitinha, quando quase nada se ouvia, sabia-se muito, era nítido a voz das sereias, o canto tão doce quanto a brisa que passava no rosto da pequenina... E tão bonito quanto os raios de sol em uma manhã de verão. Nada se via, nada se tornava sólido, mas eis um fato: ela ouvia. Não passava daquele lugar, pois tinha medo de que as sereias a vissem e então nunca mais cantariam. Que triste! Que triste! A pequenina um dia aproximou-se um tantinho mais, sentou-se por entre as rochas, escondendo três quartos do corpo, deixando apenas o rosto curioso se sobressaindo. Pelas barbas de Merlin! Era verdade! Havia mais de uma, não eram muitas, mas o suficiente para que a pequenina abrisse os lábios, tão surpresa como quando os homens de meia-idade lhe contaram sobre o canto. Não ia falar nada, tampouco cantarolar com elas, fotografar? Que os Merlins perdoem a efusão do pensamento! Jamais! Então ela ficou ali por cerca de meia hora, prestou atenção em todos e quaisquer detalhes – mínimos que fossem -, e então fechou os olhos. Acordou uma hora depois, deitada na grama, o canto fora embora... Guardava então, a lembrança. Correu para dentro da casinha, entrou em seu quarto e abrira a janela enquanto procurava ansiosamente por um pedaço de papel inutilizado. A luz do luar – forte, intensa, encantadora – perdurava e fez com que a pequenina não precisasse de luz. Passava as mãos suavemente pelo papel, e depois de alguns instantes lá estava o desenho: as sereias! Ninguém acreditaria se ela contasse, ninguém! De que adiantaria? Além do mais, segredos são tão encantadores... Não? Ela guardaria, tinha até ciúmes de suas descobertas, mas não podia deixar de registrá-las. Registrava cada uma de modo diferente, de um jeito muito dela, era tão peculiar! A garotinha enfiou o desenho dentro de um livro, colocou-o embaixo de seu travesseiro, esticou a cama e deitou-se, como quem iria começar agora uma linda noite de sonhos com Ártemis e Afrodite... Adormeceu. 

2 comentários:

  1. Que saudade de te ler, Rapha!
    Seus contos, textos, até conversar contigo sempre me deixa com vontade de um pouco mais. sempre.
    Bom vinda de volta a blogosfera, bebê!

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  2. Fico sempre muito feliz com seus comentários, lindinha! Muito obrigada por sempre me dar aquela forcinha! Um beijo!

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